Acho que faz cerca de três semanas que vejo a minha caderneta preta estagnada entre a pilha de livros do meu quarto.
Ontem, reparei que a capa preta estava com um aspecto acinzentado. Percebi que a poeira aos poucos foi se alojando entre os livros e a caderneta.
A primeira vez que isso aconteceu.
A primeira vez, de uma vida inteira, que fiquei tanto tempo sem escrever. Pode parecer e soar um tanto quanto dramático, mas eu garanto que não.
Tenho consciência de que não escrevi porque não quis. Não senti vontade. Assim como não quis um tanto de coisas e por outro lado, quis um tanto de coisas.
Mas não vou negar, faz cerca de três semanas que tenho sentido saudades de ser eu. De voltar para minha caderneta preta, de me recolher entre os livros já empoeirados, de sentir o cheiro da vela de Patchuli (desde sempre a minha preferida), acender a minha luminária e me perder por horas e horas entre as minhas playlists aleatórias.
Por outro lado, percebo que já não faço isso com a mesma naturalidade de antes, da adolescência, que tinha o tom de melancolia quase ideal para viver momentos como esse.
Na quinta, antes do trabalho, passei na livraria, eu queria muito comprar o lançamento da Tamara Klink. Bom dia, inverno. Eu tinha certeza que precisava ler algo que fosse me encorajar. Para me fazer viajar. Tomar coragem de encarar os tantos sonhos e vontades que tenho em mim. Sempre que sinto isso, volto para os livros da Tamara.
Dessa vez, o livreiro me veio com uma péssima notícia: o livro havia esgotado. Mas disse que tinha uma ótima recomendação. Perguntei qual. Quando o vi, ele me apareceu com o livro da Bruna Martiolli. É tempo de Morangos. Fingi surpresa (como se eu não conhecesse a Bruna) e acabei comprando o livro. Achei um bom sinal do universo. A Luiza já estava há dias falando do livro comigo e tenho comigo que as recomendações dos livreiros são conselhos quase divinos.
Entrei no uber. Abri o livro e comecei a ler. Quando percebo: lágrimas, lágrimas e lágrimas.
O livro da Bruna aos poucos me fez perceber que eu não precisava de algo que me encorajasse a ir.
Eu precisava de um livro que me encorajasse a voltar.
A cada página lembrava das tardes de estudo (com 14 anos) assistindo os vlogs da Bruna.
Lembrei de como eu ficava empolgada com a ideia de ler Eça de Queiroz, Tolstói, Machado de Assis, Clarice, Hilda e tantos outros.
Lembrei da sensação de chegar do colégio e ir correndo pro sofá ler, ouvir música ou assistir filmes.
Lembrei de como a Mônica ficava brava e sempre dizia: Lalá, o almoço vai esfriar e eu preciso recolher a mesa. E eu sempre pedia para ela ter paciência (como uma adolescente mimada).
Lembrei da sensação de ler e reler todas as poesias do Zack Magiezi (que hoje me parecem péssimas).
De ir aos sábados ao café com letras ou ao ccbb com a luiza.
De ouvir incansavelmente Beirut. Chorar com Los hermanos e me isolar com Terno Rei.
Vestir roupas pretas e usar all star coloridos.
De ir na gráfica do bairro e pedir ao Juninho (funcionário) para imprimir fotos da Clarice, da Sylvia Plath, da Hilda Hilst e pinturas do Van Gogh para eu colar na parede do meu quarto. E depois ouvir incansavelmente o meu pai reclamar dizendo que iria manchar toda a parede.
É. Acho que cheguei em um ponto do texto que não sei como continuar. Talvez, porque preciso me apressar para ir para academia e depois para o trabalho e depois para a faculdade.
Percebo, inevitavelmente, que o tempo passou. Tenho a sensação que rápido demais.
E me dói saber que mesmo que eu ainda ame ouvir Elephant Gun, o meu corpo já não reage com a mesma empolgação de antes.
No fundo eu sei que não posso voltar, e talvez, eu nem queira voltar.
Toda essa melancolia me tirava os pés e o mundo me doía muito.
Mas desde quinta já não sinto mais tanta vontade de ir.
Por ora quero me perder com a porta fechada, com o cheiro de patchouli e ao som de Los Hermanos.


eu <3 seu coração e seu cérebro